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os desafios do pastoreio na pós-modernidade

O que temos vivido nestes dias cria dentro em nós, pastores, uma dúvida inquietante: “como pastorear na pós-modernidade”? Estamos diante de um grande desafio.

O que temos pela frente é um caos generalizado. Somos testemunhas de que a indústria da morte dizima milhões por dia. O tráfego corre solto nos corredores da sociedade. A degradação moral ventila na mídia por causa do aumento da pedofilia, homossexualismo e novas opções sexuais.

Abortos são relativizados pelas parcerias, tanto dos amantes, quanto dos médicos. Pede-se licença descarada para matar esta certa classe de seres humanos (fetos), em detrimento dos interesses escusos de outros (adúlteros, fornicários). Sem contar a política, em que os representantes só governam em prol dos que investem financeiramente em seus mandatos, e não nos que de fato os elegeram, o povo. Somado a isso, ainda temos a falência da família, da moral, dos princípios, dos valores e da ética. E quando olhamos para a igreja, observamos que o pastoreio transcende o púlpito, dando espaço ao que chamamos de pastoreio eletrônico mediante a um rebanho virtual, cujas doutrinas se conflitam com a nossa, criando, tanto uma manipulação do sagrado a fim de atender interesses mercantilistas, quanto a produção de um orfanato cristão, que produz um cristianismo infantil, imaturo e dependente.

Mediante a esse quadro, creio que os desafios são:

1. Não cessar a voz profética, dada por Deus, por causa das lutas:

2.2. mas, apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, como é do vosso conhecimento, tivemos ousada confiança em nosso Deus, para vos anunciar o evangelho de Deus, em meio a muita luta.

O sistema estrangula a voz de Deus, mediante o processo cadenciado pela pós-modernidade com as seguintes ideologias:

  • globalização: criação de um clima competitivo, tornando o indivíduo com pele de rinoceronte (por causa da blindagem individualista), e pata de elefante (por causa da indiferença massacrante).
  • secularismo: fragmentação da vida entre sagrado e secular.
  • humanismo: centralidade universal no homem, antropocentrismo.
  • pluralismo: relativização do absolutismo, não há verdade, cada um constrói a sua.
  • consumismo: estabelecimento do valor pelas posses, logo, a pessoa se torna uma consumista e não uma doadora.
  • materialismo: criação de uma cruz dourada, culturalmente aceitável mediante as conveniências pessoais.
  • pragmatismo: ânsia pelo imediato, sendo que o valor é estabelecido pelos resultados, o que fortalece o conceito de descartabilidade.
  • existencialismo: busca desenfreada da identidade, logo, autentica-se a existência a qualquer custo.
  • hedonismo: sistema em que o prazer é o foco da vida, e que é fortalecido pela indústria do entretenimento e a refutação do sofrimento.

Somando-se tudo isso, percebemos uma conspiração pelo silêncio bíblico. Há de forma orquestrada, uma resistência a que o cristianismo se sobressaia na globalização. O interesse do sistema mundano é o esfacelamento das forças espirituais e enfraquecimento da voz profética da igreja de Jesus. Mas a exemplo do apóstolo Paulo, mesmo diante de lutas e tribulações, ele não se tornou infrutífero, nem deixou de ocupar seu espaço no corpo, muito menos de cumprir sua função mediante a visão e missão que tinha. Ou seja, continuou pregando o Evangelho sem dourar a pírula. Assim se conclui que somente o Evangelho do Senhor Jesus Cristo é que terá poder para sobreviver a tantas tendências.

2. Manter a integridade diante de Deus, mesmo que a reputação diante dos homens esteja comprometida.

2.4. pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração.

Como já disse John Stott, “a verdadeira função do pregador é: perturbar os que estão calmos e confortar os que estão perturbados”. Consequentemente, haverá incômodo para muitos. E o alerta do apóstolo é: agrade a Deus e não a homens.

Na tentativa de agradarmos a todos, iremos adoecer. A pós-modernidade forja pessoas críticas e exigentes. Questionadoras do óbvio. Não conseguiremos atender às  expectativas de todos. Há muita divergência de pensamentos e vontades, sem contar as distorções teológicas, devido ao pluralismo na cabeça de cada. 

Isso resultará em descontentamento. E requererá do pastor uma inteireza com Deus para transitar de cabeça erguida na comunidade e sociedade quando vierem calúnias e difamações por parte dos que foram contrariados. Logo, o pastoreio só estará estabelecido em autoridade se houver uma integridade na nossa relação com Deus e este se incumbirá de tratar os que comprometem nossa reputação v.3.

3. Quebrar o paradigma do mito construído sobre nós

5. A verdade é que nunca usamos de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha.
6. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros.

A sociedade do espetáculo e sensacionalismo, que vivemos hoje, constrói suas celebridades, heróis e mitos. Isso é feito para ostentar e criar referenciais, a fim de dar maior credibilidade e significância ao povo. Mas na verdade cria preconceitos e marginalizações sobre os que vivem no anonimato.

Daí ocorrem mudanças visíveis, a começar pelos novos rótulos que surgem no meio evangélico, que visam essa construção. Revelando um homem tanto insubstituível quanto inacessível. Sendo uma espécie de salvador da pátria. Um messias.

Suas ações são geralmente excludentes, com conchavos e intimidades com os mais abastados e resistências e distanciamentos com os mais pobres. Demonstração dos intuitos gananciosos para os que apresentam troca de favores (relação utilitarista), e desinteresse aos conservadores da fé singela e simplista. Linguagem possessiva em relação à obra e aos objetos de Deus e discurso reprobatório aos desfavorecidos em suas conquistas materialistas.

Assim, essa igreja se torna “um fim em si mesma” na pessoa do mito, e não na de Jesus, por causa das manobras que sutilmente querem nos engessar para retro-alimentar as cobiças humanas.

4. Transformar a ocupação em vocação ministerial independente do salário

7. Embora pudéssemos, como enviados de Cristo, exigir de vós a nossa manutenção, todavia, nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos,
8. assim, querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito amados de nós.
9. Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como, noite e dia labutamos para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamando o evangelho de Deus.
10. Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes.

Como fundo histórico, sabemos que alguns irmãos estavam cruzando os braços para o trabalho com o pretexto de que Cristo voltaria. E para o apóstolo combater esse desvio de conduta dentro da igreja, ele opta em não se apoiar financeiramente nos irmãos, para o desenvolvimento do evangelho. Sabemos também que o apóstolo tinha sua profissão como confeccionador de tendas, o que lhe dava uma remuneração e o gabaritava como exemplo, no autossustento para os demais.

Paulo então, não se coloca como refém do dinheiro da igreja, mas como voluntário independente do salário. Ele tem a nítida consciência de que sua vida e ocupação é um ministério, o qual tem de ser cumprido. E com essa atitude, ele refuta todo espírito mercantilista, utilitarista, capitalista e cultural (busca das facilidades com mínimo esforço e máximo benefício), elegendo um estilo de vida simples v.10, com amor pela semeadura sem a obsessão pela colheita.

5. Investir em relacionamentos

11. E sabeis, ainda, de que maneira, como pais a seus filhos, a cada um de vós
12. exortamos, consolamos e admoestamos, para vivermos por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.

A pós-modernidade produz um senso de falta, inadequação e insatisfação causando fracassos, perdas e culpas nas pessoas. Surgem aí as ingratidões, desconsiderações, insubmissões, críticas e muitos outros defeitos, como frutos dessas mágoas. E estes ressentimentos se transformarão em vinganças que migrarão para os nossos corações provocando feridas, fazendo com que, muitas vezes, desistamos das pessoas por causa dos desgastes emocionais.

Nesse clima será fácil perdermos a capacidade de nos relacionar. E o risco em não acreditarmos mais no ser humano aumentará nos colocando em isolamento. Observemos Elias em suas comiserações (I Rs 19. 14-18). E Paulo em suas decepções (II Tm 4. 9-21). Por isso, não podemos perder de vista as amizades espirituais que proporcionarão cura e incentivo. Sempre Deus deixa ao nosso lado um “Lucas e um Timóteo” que irão comunicar afeto, solidariedade e amor.

Lembremos que o nosso chamado é para a comunhão. Deus nos levantou para propagarmos um modelo de comunidade. A ordem é confeccionar vínculos saudáveis e prepararmos outros para as próximas gerações v.12, e para tal tarefa teremos que continuar crendo em relacionamentos íntimos v.11.

Há muito trabalho e os desafios estão na nossa frente. Encaremos com hombridade, porque, por certo, o legado ficará como alicerce para o enfrentamento do pós-modernismo. Logo, o senso de missão será preenchido e diremos: combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.

Pr. Sérgio Mascarenhas

 

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